
O fato de eu ter escrito um post aqui no blog sobre brasileiros x tecnologia, usando o "lançamento" do Sexkut, me colocou dentro de um alvoroço imenso que rola pela web brazuca. É que o "lançamento" era mais um hoax, uma espécie de videocassetada virtual, do site Cocadaboa. Até aí, bacana, engraçado, recebi com bom-humor. Então começaram a aparecer artigos, pedidos de entrevistas e comentários tercerizados tão desproporcionais por aí que resolvi me dar o trabalho de responder a um dos entrevistadores para encerrar minha participação e comemorar o tão festejado assunto.
As perguntas são da jornalista Marinilda Carvalho, editora-assistente do Observatório da Imprensa. A quem agradeço o interesse, a inteligência e a gentileza em autorizar a publicação da íntegra das minhas respostas aqui no blog.
Com vocês, o assunto da hora (espero que esta hora não dure uma eternidade pela falta de assuntos que empesteiam as redações do Brasil): Sexkut!
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1) Por que você achou interessante noticiar um Orkut dedicado ao sexo?
Minha intenção no post foi indagar o por que de nós brasileiros, sub-cidadãos de um país miserável, sermos tarados por inovações tecnológicas. Provocar a molecada que frequenta o meu blog a pensar no que fazer com essa inusitada habilidade verde-amarela com as ferramentas da revolução digital.
Se queremos ser uma Bangalore tropical (referência à cidade da Índia que produz softwares de ponta em sincronia com o Vale do Silício do outro lado do planeta) ou se queremos ficar em "apenas idéias como essa do Sexkut", como encerro o texto.
Portanto, ao contrário da premissa da sua pergunta, não "noticiei" o lançamento do Sexkut. Mas usei a idéia da criação do Orkut do sexo por um brasileiro para perguntar: afinal existe algum papel para o Brasil nessa nova era além da mais primordial sacanagem?
Poderia também ter perguntado: por que o Brasil é o único lugar do mundo onde a imprensa "séria" dá importância ao Orkut? Na Europa, Ásia e Estados Unidos, onde foi criado, não foi dada a mínima importância a essa brincadeira de fim de semana de um funcionário da Google. Aqui, até o governador de São Paulo já deu entrevista em rede nacional sobre o "fenômeno".
2) Você questionou (principalmente) a tara do brasileiro pelas novas tecnologias. O conteúdo per se chamou menos sua atenção?
Sim. Tenho esse defeito de fabricação. Desde criancinha no jornalismo, quando incorporava o repórter Ernesto Varela, me interessa mais a interpretação crítica do que a "realidade" dos fatos.
3) O que você faz normalmente, que tenha falhado desta vez, para escapar de boatos e lendas da internet?
Checagem. Neste caso, conferi a existência e registro do domínio. Depois da publicação do post, fui procurado por vários coleguinhas excitadíssimos em descobrir quem "na verdade" era o Mr. Sexkut. Para alguns dos que imaginavam que eu guardava um "furo" jornalístico, declarei minha suspeita de que o site era apenas um cenário de filme de faroeste, aqueles onde só existe a fachada dos prédios. Ou seja, a existência ou não do projeto nunca me importou. Sei de gente que gastou dias, e até telefonemas internacionais, para decifrar tão misterioso segredo.
4) Fazer matéria agora sobre tão imensa nulidade, como a que eu estou fazendo, tem algum valor?
A nulidade ou não das coisas que estão no mundo dependem do olhar de cada um. Eu estou me divertindo muito com a importância e seriedade que está sendo dedicada à essa "notícia". Ao contrário da esmagadora maioria dos profissionais do jornalismo, me sinto afortunado quando é me dada a oportunidade de rir de mim mesmo. Não me acho infalível. Não considero que a missão dos jornalistas é serem os coroinhas do supremo sacerdote que guarda a "verdade". O que inclui severa punição com varinha de marmelo aos que questionam a linha sutil que define o que é ficção e o que é "realidade".
Para encerrar, deixo aqui registrado para a posteridade que apesar dos esclarecimentos acima, aprecio desde há muito tempo (já o veiculei várias vezes no meu programa na TV Cultura) a irreverência e ousadia do site Cocadaboa. Rara, nesses tempos de jornalismo careta e covarde no Brasil (neste quesito concordo com o presidente Lula: os jornalistas brasileiros são covardes). Sinto-me honrado em ter virado mais um "pato" do Mr. Manson. Já o foram: Ancelmo Góis, Ricardo Noblat, Cesar Giobbi, Pedro Dória, Júlio Hungria... Para não falar de empresas de comunicação como o The New York Times, que ao contrário das empresas de comunicação brasileiras, já cometeram, e até admitiram, erros cabeludos. Estou em boa companhia. Ao contrário de José Sarney e Carlos Heitor Cony, sou mortal. Ufa, posso dormir em paz!
PS: se você quiser continuar comentando o assunto, não se avexe. Apesar de não parecer, estamos todos aprendendo aqui nesse mundo.