24/02/2005

O MARTÍRIO PÚBLICO DE JP II

 

Quando morreu Paulo VI eu era tão novinho que nem sabia que Papa morria.

Logo aprendi que morre. E fácil. O próximo, João Paulo I, uma simpatia instantânea, durou pouquíssimos dias depois de escolhido. Um choque.

Nunca pensei que fosse possível aparecer alguém a altura para sucedê-lo. Mas veio um polonês cheio de humor e virou João Paulo II. Naquela época eu ainda tinha alguma ligação com a igreja católica. Mas não só por isso gostei do cara. Ele realmente trouxe um novo ar ao papado. Falava dos miseráveis com sinceridade e compaixão.

Com o passar do tempo, esse implacável, JP II foi virando um homem rígido. Até no sentido físico. Tomou a atitude indefensável contra a casiminha, no auge da AIDS e das trevas da ignorância sobre a doença. Um erro irremediável, cruel, até criminoso, eu ousaria dizer. Tomei uma distância da figura do Papa, apesar de não nutrir nenhuma aversão ou ódio à sua pessoa. Me decepcionei com a figura que eu mesmo havia recebido com tanta alegria na juventude.

Agora, no final da vida, me incomoda profundamente essa exposição que ele próprio se submete à mídia. É desconcertate o constrangimento dos enviados especiais aguardando a sua morte. A linda correspondente da Globo está na Itália há pelo menos 4 anos. É claro que não exclusivamente para esse fato, mas principalmente, é evidente.

Não consigo entender por que submenter o Papo a um martírio público?! Dom Paulo Evaristo foi o único até agora que se colocou contra isso tudo, numa entrevista corajosa ao jornal O Estado de São Paulo, no domingo retrasado.

A vida espiritual nos deveria ensinar a lidar com a morte de uma forma elevada. Não me parece ser essa a lição de JPII. Vou orar para que ele aprenda e nos ensine viver esse momento tão difícil da vida que é a morte. Com amor e respeito, amém.

Escrito por Marcelo Tas às 14h07

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22/02/2005

O QUE HUNTER THOMPSON E O DALAI LAMA TEM EM COMUM?


 


Hunter Thompson, um dos grandes inovadores na arte de contar uma história jornalística, enfiou uma bala na cabeça no último domingo.


A técnica de Thompson, chamada de ''gonzo journalism'', consistia em misturar a figura do repórter com o fato narrado. Justamente o contrário do que pregam alguns documentaristas que se acham a voz de Deus. Ou de jornalistas que se acham na posição mágica da simetria outorgadora da neutralidade e da verdade. Ou seja, se acham no papel do cara lá de cima, também.


Muita gente boa confunde jornalismo gonzo com pegadinha do Faustão. Este híbrido de documentar um fato misturando com o personagem subjetivo e muitas vezes ficcional do narrador gerou um novo enquadramento possível para aquilo que chamamos de realidade. Vieram novos formatos e linguagens. Já compararam minha performance como Ernesto Varela com a viagem do Hunter. Acredito que devido a alguma semelhança na cobertura de eventos políticos. Especialmente na cobertura dele da campanha política norte-americana de 1972 com a série:  ''Fear and Loathing: On the Campaign Trail '72''. Comparada com a cobertura do movimento das diretas que fiz na pele do Varela tendo como câmera meu fiel camera-man Valdeci, interpretado também gonzonicamente por Fernando Meirelles. Tudo isso, muito antes de conhecer a obra do cara, coisa que fiz recentemente, na década de 90, graças à Amazon.com e depois à Editora Conrad, que reeditou algumas de suas obras (alo molecada rebelde navegadora desse blog, leitura obrigatória!).


Esta manhã, a capa do site do The New York Times com a notícia da morte do HT me trouxe uma angústia difusa no peito e ao mesmo tempo um insight luminoso: ele está a cara do Dalai Lama!


Tão improvável quanto impossível ambos tem muito em comum. Dois caras em busca da verdade. Um através dos mantras e da viagem interior. O outro das drogas, da literatura, do ego e dos caminhos turbulentos da América selvagem.


Hunter Thompson, o caçador de si mesmo. Obrigado, boa viagem e até breve.


 

Escrito por Marcelo Tas às 10h47

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21/02/2005

PISTOLEIRO BRASILEIRO


Você já reparou num detalhe do bang-bang paraense, cujo mais recente capítulo culminou com o bárbaro assassinato da irmã Dorothy?


Os nomes e apelidos dos pistoleiros pés-rapados envolvidos na trama falam mais do abandono dessas almas desde o nascimento do que as eventuais teses sociológicas sobre mais essa tragédia brasileira.


Senão vejamos:


O agricultor Amair, conhecido como Tato é suspeito de ter contratado dois pistoleiros a mando do do fazendeiro Vitalmiro: Rayfran, vulgo Fogoió; e Uilquelano, cujo apelido é Eduardo (!?).


Rayfran, Uilquelano, Vitalmiro, Amair... são indícios daquilo que a gente já sabe: o problema do Brasil é a total ausência de educação básica.


 


PS: Para Ualame, o delegado federal que preside o inquérito (isso mesmo que você leu: o nome do cara é Ualame), está claro que o mandante do crime foi Bida, apelido recentemente descoberto do fazendeiro Vitalmiro de Moura, que a propósito, ainda está foragido. Pelamordedeus!

Escrito por Marcelo Tas às 09h10

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18/02/2005

Ô GISELE, AJUDA O GAROTO



Queridos cinemaníacos,

Estou com Jorge Furtado. Só saio de casa pra ver cinema brasileiro. Ou Scorsese, Woddy Allen... e olhe lá.

Por isso, deixei meus livros e fui ver The Aviator. Amo aviões, amo Scorcese, difícil não ser um golaço.

Não foi. Motivo principal em duas ou três palavras: Leonardo di Capprio. Assim como Tom Hanks, um ator genial, estragou a Fogueira das Vaidades, Leo faz o mesmo com O Aviador. O garoto não tem estofo, como se dizia antigamente, para fazer o milionário texano psicopata mulherengo Howard Hughes. É uma pena. Ele até tenta, mas arruina o filme, que tem momentos cinematográficos brilhantes, o que é absolutamente esperado quando atrás da câmera está o italiano mais novaiorquino do mundo, Martin Scorsese.


Pensando bem, falta para o Leonardo aquilo que o Tim Maia muito bem definiu uma vez: todo artista precisa levar uma boa chifrada da mulher para compor músicas mais espessas.

Taí, Leo, enquanto você tiver essa carinha de Chica Bon, sem a devida cicatriz da vida, não dá pra fazer papel de homem de verdade. Macho que é macho já levou chifre.

Alô Gisele Bundchen, ajuda aí o cara, pô!

Escrito por Marcelo Tas às 18h11

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16/02/2005

EU, O ANTONIO ERMÍRIO DE 2005




Crianças,

Desculpe o post auto-referente, mas blog também serve para isso. Falar da vida da gente. Aliás, a maioria.

Hoje, dia 17 de Fevereiro, vai acontecer um grande absurdo. É a formatura da Turma 2004 da Escola Politécnica da USP- a POLI, uma das mais respeitadas faculdades de engenharia deste país. Até aí tudo ok, não estivesse no palco discursando como Patrono da turma, eu.

É uma grande honra, é claro. Mas fico muito preocupado com esses sinais. É a segunda vez, e com certeza a última, que sou Patrono de uma faculdade que eu mesmo cursei. Primeiro foi a ECA, Escola de Comunição e Artes, em 2003. Agora, a POLI.

Quando me formei na POLI, no distantíssimo ano de 1983, o Patrono foi Antônio Ermírio de Morais. Aí perguntas começam a me incomodar: estarei à altura do homem do cimento? Teriam os formandos 2004 tomado chá de cogumelo? Seriam alunos do Professor Tibúrcio?

São muitas dúvidas e uma grande emoção. Apenas uma certeza: com essa notícia entramos definitivamente na Era de Aquarius. Não tem mais nada de esquisito para acontecer. Ou tem?

PS: a foto acima, de 1980, mostra o dia em que fui picado, na Escola de Engenharia da POLI (vejam vocês) pelo bicho da Comunicação. Esse é o meu grupo de amigos anarquistas (a chapa Beleza Pura, como podem ver nas camisetas) comemorando a nossa sensacional vitória sobre uma chapa de direita e outra de esquerda para o CEC- Centro de Estudantes da Civil. Estou ali no meio (duvido que me achem) transbordando de felicidade por ter sido nomeado editor do jornalzinho de humor do Grêmio, o Cê-Viu? (que existe até hoje!). Uma espécie de blog da época que curiosamente acabou me jogando pra fora da POLI e me dando esse rumo torto na vida. Obrigado, turma 2004 pelo convite. Vou fazer o possível para não decepcioná-los no terno e no discurso.

Escrito por Marcelo Tas às 00h14

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