
Como comentar o fim de um projeto conquistado a sangue, suor e lágrimas tão bem sucedido como a Lei do Fomento ao teatro de São Paulo? Eram espetáculos, escolas de formação de atores, estratégia para formação de público, trabalho junto a comunidades da periferia... enfim um ecossistema frágil mas poderoso começando a reverter uma situação de caos e terra arrasada mental que vivemos nessa imensa nação tropical. Só o teatro tem a força para tal tarefa.
A Lei do Fomento de SP deveria ser adotado como um modelo por esse governo federal raquítico e ignorante na área da cultura, apesar de todo o esforço e charme do ministro Gil. Deveria ser adaptado para outras cidades do país. Despertou interesse e ciúme dos artistas cariocas que dependem do monopólio das estrelas de televisão e da obrigação de satisfazer diretores de marketing bobocas que se satisfazem com vinho branco e fotógrafos da Caras.
O fim da Lei do Fomento, se acontecer, é um fato que deve provocar a nossa indignação mais profunda. Se a coisa caminha nessa direção mesquinha, só nos resta a barbárie. Aliás, talvez aí esteja o erro da classe. O movimento que consquistou a aprovação da lei se denomina Arte Contra a Barbárie. Talvez devemos fazer o contrário. Apoiar a barbárie, a pirataria, o desgoverno, os negociatas e os cachaceiros quebradores de bar, como fez recentemente o rei do pastelão mofado Severino Cavalcanti.
Assisti nos espetáculos apoiados pela Lei do Fomento, uma luz no fim do túnel. A possibilidade de novas vozes e expressões, além dos medalhões de sempre.
Alô artistas do teatro paulista, mãos à obra. Vamos apoiar a barbárie!
Não é possível nã existir no orçamento da mais rica cidade do Brasil míseros R$ 9 milhões por ano para continuar o projeto! R$ 9 milhões é salário anual de apresentador de TV no Brasil! E foi valor suficiente para iniciar nos últimos dois anos, um verdadeiro saneamento e encantamento em milhares de almas na maior capital da América do Sul.
Um governo responsável deveria destinar valores infinitamente mais elevados para arte e educação, como fazem França, Alemanha, Inglaterra, Coréia, Japão... Mas parece que não é o caso. Queremos permanecer no breu junto com os ignorantes.
Peraí, deixa eu fazer uma conta: R$ 9 milhões... É o equivalente a 0,24% do lucro anual do Banco Itaú!
Pronto, tá resolvido! Alô Dona Milú Vilela, a senhora que gosta tanto das artes, das iniciativa comunitárias, poderia entrar para história, como a mulher que venceu a barbárie na capital paulista. É fácil, só ir no bankline e transferir essa bobaginha, 0,24% da montanha mágica dos lucros do seu banco. Num clique, a senhora se tornaria a amante brasileira de William Shakespeare!
Mas o trágico deste drama é que a senhora e grande parte dos dirigentes que detém o poder de governar os destinos desse povo criativo e resistente, ainda tem uma dúvida fundamental a ser resolvida: ser ou não ser?