
Pela reação petista no post abaixo, dá pra imaginar o nível da campanha eleitoral 2006. Aliás, ela já começou. A propaganda eleitoral gratuita que vejo enquanto datilografo essas linhas é simplesmente inacreditável: está tudo azul, os preços estão caindo, a educação vai muito bem, a segurança nem se fala e a saúde, me informa agora o rapazinho que descolou um cachê para sorrir no vídeo, está ajudando muito a população.
Como eu sou brasileiro e não desisto nunca, peço desculpas aos petistas que se sentiram ofendidos de maneira pessoal no post abaixo. Reli e confirmo que lá não há nada pessoal. Não há preconceito. É um conceito. O PT é uma grande decepção. Não sou o único que reconhece isso.
Se alguém aí se interessa em entender de fato onde fica o buraco, republico aí abaixo, texto de Sílvio Meira, cientista e professor-titular da Universidade Federal de Pernambuco, que você pode ler na íntegra em: www.meira.com.
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INOVAÇÃO? PRA QUÊ?
No Brasil nem tudo está perdido, ainda há muita coisa a perder... Parte de uma música do cearense Falcão, a frase sintetiza nosso estado de coisas, de perdas, principalmente de tempo. De tentar entender porque, liderando o mundo no uso de orkuts, fotologs e skypes, nenhum deles foi construído aqui e, muito menos, desenvolvido como negócio mundial a partir daqui. Custa a crer que sejamos mesmo um povo inovador. Ainda mais quando um número surpreendente de jovens, formados nas melhores escolas de tecnologia, a um custo dantesco, está em busca da "segurança", "futuro" e "aposentadoria integral" de um cargo periférico no serviço público. Onde será que erramos tanto?
As próximas décadas serão de um avanço feérico da ciência e tecnologia, tanto quanto da complexidade dos problemas que teremos que tratar. Como diminuir a velocidade de um furacão ou, melhor, evitar seu nascimento, se é que é possivel? Talvez não; mas se eles estiverem relacionados com o aquecimento global, não basta se tirar tal conclusão. Há que se gerar as alternativas - tecnológicas, em sua vasta maioria - para o tipo de consumo de energia que estamos, hoje, perpetrando contra o planeta. Noutro departamento, células de combustível irão substituir parte da energia que usamos hoje, de fontes fósseis ou não. O Brasil não tentou registrar nenhuma patente, na área, nos EUA, nos últimos cinco anos. O Japão tem mais de quinhentos pedidos. Inovação vai depender, mais do que hoje, da capacidade de formação e absorção de capital humano muito sofisticado e os países serão separados pela qualidade e penetração do sistema educacional e pelo grau de geração de oportunidades para os que por ele passarem. Muito mais do que hoje.
A "lógica" do nosso desenvolvimento, se é que há alguma, é no mínimo estranha. Parte-se do princípio, contrário às evidências, de milagres e messias... que abririam as portas de céus, incluindo o mercado mundial. Aliás, soma-se a isso uma boa dose de irresponsabilidade e a crença, irredutível, de que Ele é brasileiro. Aí vem a aftosa e a vaca vai, literalmente, sendo enterrada no brejo. No embate entre a produção básica de proteína e a criação de condições para tal, a margem de lucro está nas tecnologias, nas ferramentas, e não no frango, na granja e no abatedouro, como veremos muito em breve na gripe das galinhas. Pensar em "lógica", quando se discute desenvolvimento, é pura perda de tempo. Desenvolvimento depende, de maneira fundamental, do aumento de produtividade, cuja fonte é inovação, coisa de companhias e que acontece no mercado. Laboratórios de universidades e centros de pesquisa não inovam, pois o teste de idéias, conceitos e resultados teóricos é a vida real: cria-se, ou não, produtos e serviços pelos quais o público quer pagar?
Oitenta por cento dos pesquisadores brasileiros estão nas universidades e centros de pesquisa. No mundo que nos vende propriedade intelectual, oitenta por cento está na indústria. Lá, governos criam todos os tipos de condição e contexto para que se desenvolva os produtos de amanhã. Que nós importaremos, a troco de muita soja, carne e frango (se houver...), depois de amanhã. Pois aqui, a Lei de Inovação vai completar um ano sem nenhum indício de aplicação; recentemente regulada, tem um forte componente de normalização de relacionamento entre a academia situada nas universidades federais e um suposto mercado privado interessado em utilizar serviços de seus laboratórios e consultoria dos seus pesquisadores, mas não se ouviu falar no que realmente interessa, que é dinheiro vivo no caixa das empresas, para enfrentar a concorrência internacional com produtos inovadores, como se faz, de novo, nos países que nos vendem propriedade intelectual.
Inovar é, antes de tudo, um ato de ruptura. Fala-se tanto em refundação, por aqui, que talvez devêssemos refundar o país. Simplificado. Com uma Constituição muito pequena. Com menos leis e regras. Menos governo. Muito menos. E mais atenção ao mundo real ao redor. Neste mundo muito real, espera-se que o governo cumpra seu papel magistral fazendo apenas três coisas: eduque gente, em quantidade e qualidade, crie oportunidades para este povo educado se desenvolver na economia e na sociedade e, por fim, saia da frente e não atrapalhe a iniciativa privada tanto física quanto jurídica. Senão seremos sempre um país de benesses, cartórios e bacharéis. Que carece de qualquer tipo de inovação. Pra quê?...