
Tudo aponta para que o Brasil, ou melhor, o Hélio Costa, ministro das Comunicações, decida pelo padrão japonês de TV digital. Bilhões, e bota bilhões nisso, de dólares se movimentam por conta da decisão.
Vende-se a versão de que o assunto não foi debatido pela sociedade. Pode ser, mas é bom você saber que o assunto é tratado há anos por uma bela parcela da comunidade científica brasileira e profissionais da área. Criou-se inclusive um grupo de estudos em torno de uma sigla: SBTVD- Sistema Brasileiro de TV Digital. A intenção não era exatamente criar um novo padrão, além do europeu, americano e japonês. Mas de pensar a hipótese do Brasil adotar um modelo híbrido que incluísse suas características e necessidades próprias para quem sabe ajudar a resolver aqueles probleminhas de sempre: democratização da informação, acesso de qualidade à internet com custo baixo, estimular a variedade da produção cultural, uso da TVD na educação... Enfim, tentar reverter o quadro dos últimos 30 anos de coronelismo eletrônico iniciado pelo ex-presidente José Sarney, dono de praticamente todos os meios de comunicação do Maranhão. Estado que ilustra, como uma caricatura de si mesmo, a fragilidade da expressão livre no Brasil e a consequente debilidade mental da nação nesse quesito.
Foram envolvidos mais de 1.500 pesquisadores de 80 instituições diferentes de todos os cantos do país em torno do SBTVD. A pergunta que não quer calar é a seguinte. Por que depois de anos de pesquisa e discussões, o governo federal está anunciando a decisão sem ouvir o que essa importante fatia de cérebros brasileiros pensou sobre o assunto? Por que o Sr. Hélio Costa está com tanta pressa? Será uma coincidência o fato do padrão japonês, o padrão preferido do Sr. Costa, ser também o preferido das grades emissoras de TV e este ser um ano eleitoral?
Nós aqui no Brasil quase sempre aliamos nosso complexo de cachorro magro com interesses mequinhos. Com a velocidade dos tempos, não sobra espaço para errarmos redondamente mais uma vez. Como fizemos quando escolhemos o sistema de cor PAL-M, no governo Geisel. Agora a brincadeira vai implicar no modelo de concessão, produção e distribuição de conteúdo que queremos para os próximos 30 anos.
Uma coisa é certa. Qualquer que seja o modelo adotado, ele deve privilegiar a descentralização dos meios de comunicação. Para que a pluraridade de vozes brasileiras possa ser ouvida nos mais diferentes tipos de veículos, inclusive nas novas formas de assistir TV e rádio: especialmente nos Ipods (e suas cópias de baixo custo, os Ipobres) e celulares.
Este blog é contra a decisão unilateral do Ministério das Comunicações sem ouvir o grupo que estudou o SBTVD. E sem ouvir, obviamente, a sociedade, que mesmo que não saiba, é quem vai pagar o pato.