
No meu curto tempo de vida, esta é a primeira eleição que presencio com tantos indecisos. Não daqueles que saem nas pesquisas. Que não sabem ainda em quem votar. Mas daqueles que mesmo sabendo em quem vão votar, votam com pouca convicção. Sem paixão. Sem saber se estão fazendo a coisa certa.
Acalmem-se, aloprados de ambos os lados. Sim, sei que existem vocês. Homens-bomba pronto para explodir em orgasmos múltiplos ao ler a cantilena sonolenta anti-FHC de Emir Sader em Carta Maior; ou um post kilométrico de Reinaldão Azevedo, franco-atirador-blogueiro de Veja. Muitos de vocês passam por esse blog diariamente para me "xingar" de tucano ou de "anti-tucano", a favor de Lulinha. Vocês, que não enxegam nada além do branco e preto, sabem perfeitamente que estão votando no candidato certo. Por isso estão errados.
A beleza dessa crise de credibilidade é a morte de Dom Sebastião, aquele ungido por deus que viria para nos salvar. Luis Inácio foi o último dos moicanos. Não é mais virgem em honestidade. Seus "cumpanheiros" aloprados, sem ele saber, fizeram a maior demonstração já exposta com provas documentais de uso do dinheiro público e privado para tomar posse de uma nação. Por seu lado, Geraldo, o bom menino de Pinda, escorregou em vários tomates para explicar onde sua tão propalada eficiência estava quando eclodiram as Febems, o crime organizado e os "aloprados" tucanos que cavaram escândalos na reta final e santinhos do pau ôco como Álvaro Dias, o muso da peruca mais assídua dos holofotes das CPIs.
Portanto, crianças, finalmente, temos a opção de escolher entre dois candidatos humanos. Demasiadamente humanos. Que fazem alianças com ACM, Jader Barbalho, Newton Cardoso, Sarney e Jorge Borhausen. Quem fez com quem? Não importa. Eles fazem igual. Pois sabem que o buraco é mais embaixo. Sabem que depois que acabar essa campanha, a mais cara da história da República- R$ 100 milhões cada candidato- onde marketeiros pintaram e bordaram, voltamos à dura realidade.
Aliás, um parênteses. Até os marketeiros dos dois candidatos são tão iguais que recomendaram o mesmo figurino aos seus clientes nestes recentes debates da Globo e da Record: terno azul marinho e gravata vermelha. Uma receita norte-americana para sair bem no vídeo. Que traz a mensagem subliminar da bandeira do grande irmão do norte. Os candidatos acolheram a receita hollywoodiana à risca. Fecha parênteses.
A dura realidade é a maior dívida externa do mundo. Os maiores juros bancários do mundo. O pior crescimento do mundo. Ops... não, estamos na frente do Haiti. E, last but not least, a pior educação do planeta. As crianças não aprendem, chegam ao segundo grau sem saber LER!
E adivinhem, crianças, onde esses índices são piores? Justamente nos currais eleitorais onde os coronéis que apóiam ambos os candidatos, já mencionados, mandam e desmandam.
Este é o Brasil de verdade. O Brasil atual. Sem a maquiagem do marketeiro do Lula. Sem a maquiagem do marketeiro do Geraldinho.
Culpados? Chega de papo de culpado. Senão o Lula vem com Pedro Álvares Cabral para fugir da responsabilidade- e das virtudes, diga-se- dele. Senão o Geraldinho vem com a podridão do PT- que também trouxe virtudes, diga-se para o próprio Lula, que termina o governo com uma equipe inusitada. Totalmente reformatada. E muito superior aquela capitaneada por Zé Dirceu. Este sim, o grande símbolo do petismo que se foi. Ou não se foi e está só aguardando o seu votinho domingo para voltar com tudo?
Quer ficar mais indeciso? O Brasil cresce e melhora seus índices reduzindo a desigualdade desde 1993. Data em que começamos a praticar de verdade a democracia. Quando tiramos o playboyzinho do poder e começamos a votar. Aperfeiçoando o voto na experiência concreta de erros e acertos.
Bem, como você pode ver, eu também estou indeciso. Consigo ver virtudes e defeitos em cada uma das opções que temos. O que me alegra internamente é perceber que seja ela qual for o Brasil depende cada vez menos de quem for eleito. E cada vez mais de cada um de nós.
Bom voto a todos.
PS: quanto ao debate da Globo, recomendo a leitura do blog de Josias de Souza. Ele mata a pau e resume a ópera de um jeito que eu não seria capaz. Grande Josias.
Vai um trechinho abaixo. Para ler na íntregra, clique: josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br
Foto: Reuters
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Eleitores esfregam o caos na cara dos candidatos
Os móveis perdidos na casa inundada pela enchente. O irmão desempregado com três filhos para criar. Os direitos trabalhistas sonegados pela carteira não assinada. A filha de quatro anos condenada à escola pública. Os sogros sem plano de saúde submetidos à inclemência do SUS. A imprevidência de uma previdência em colapso. O pesadelo da casa própria. Os três amigos assassinados no bairro pobre. A corrupção. A impunidade.
Alguns dos dramas apresentados pelos eleitores, depois de devidamente filtrados pela produção da Globo, pertencem à pauta de governadores e prefeitos. Mas os presidenciáveis não se dignaram a esclarecer este ponto. O negócio de ambos é a venda de ilusão.
Lula respondeu ao irrespondível com o já tradicional “nunca se fez tanto na história desse país.” Alckmin repetiu que “o Brasil pode mais”. Os dois arremessaram em direção à platéia um amontoado de números e cifras. Ao final do embate, Willian Bonner soou otimista: “Agradeço aos eleitores indecisos, talvez agora não mais indecisos, depois desse debate maravilhoso.” Bobagem.